País "perde" US$ 54 bi ao não industrializar soja exportada em 2014

Ano novo, recomeço de governo e muitos planos. Até agora, boa parte do que foi dito pelos novos ministros soou como música para o agronegócio.
O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, promete baixar custos e elevar as exportações, principalmente as de maior valor agregado. Quer, ainda, um acerto entre as alíquotas interestaduais do ICMS, o que seria um alívio para as indústrias do setor.
Kátia Abreu, da Agricultura, promete a busca de novos mercados e a colocação de mais produtos nos atuais.
Armando Monteiro (Desenvolvimento) tem a agregação de valor no DNA, já que vem da CNI (Confederação Nacional da Indústria).
Finalmente, as esperanças do setor vêm também do novo chanceler, Mauro Vieira, que pode ser o caixeiro-viajante do país, abrindo novas portas para o agronegócio.
Diante desse cenário, as cadeias do agronegócio começam a fazer as contas e acreditam que, aos poucos, o país vai aumentar as exportações, principalmente as com valor agregado.
A Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais) saiu na frente e chegou a números impressionantes. Para cada dólar recebido com as exportações de soja e de milho em grãos, o país poderia ter recebido outros US$ 2,30 se tivesse industrializado as commodities.
Diante desse número, cálculo da Folha indica que a exportação de soja em grãos --que rendeu US$ 23,3 bilhões em 2014-- poderia ter chegado a US$ 77 bilhões em 2014 se a venda tivesse sido feita por meio de produtos agregados. A de milho teria somado US$ 13 bilhões, ante os US$ 3,9 bilhões obtidos.
Nos cálculos da Abiove, um hectare de terra produziu 3.010 quilos de soja na safra de verão de 2013. A safrinha de milho rendeu outros 5.780 quilos de milho no mesmo hectare de terra. Esses dois produtos, tomando como base os preços por tonelada de exportação, saíram dos portos brasileiros por US$ 2.974.
Com essa mesma quantidade de produto "in natura", o país conseguiu produzir e exportar 4.515 quilos de frango, a US$ 2.049 por tonelada. O resultado final foram receitas de US$ 9.251.
Essa produção de soja e de milho do mesmo hectare de terra, quando consumida na suinocultura, gerou ração suficiente para a produção de 3.251 quilos de carne suína, que teve uma cotação média de US$ 2.627 por tonelada no exterior em 2013. O resultado foram receitas de US$ 8.540.
Além da ração, a moagem da soja gerou 587 quilos de óleo, que renderam US$ 588.
Fabio Trigueirinho, da Abiove, diz que nem toda a soja nem todo o milho produzidos no país poderão ser exportados sob forma de valor agregado. Principalmente porque o maior importador do país, a China, prefere industrializar o produto em suas fábricas.
Além disso, a ampliação no mercado de carnes não é tão fácil, uma vez que é um dos produtos que mais sofrem barreiras.
Mas esse novo olhar do governo para a ampliação da agregação de valor é positiva. "Aos poucos, as ideias já discutidas e amadurecidas nos últimos anos poderão ser colocadas em prática", diz ele.
As mudanças passam por políticas públicas, principalmente por uma adequação tributária. A soja que vai de Mato Grosso à China é isenta de impostos. Se parar no Paraná para ser industrializada, paga 12% de ICMS, além de PIS/Cofins nos insumos utilizados na industrialização.
As exportações totais do Brasil somaram US$ 242 bilhões no ano passado. Desse valor, US$ 31,4 bilhões vieram do complexo soja (Folha de S.Paulo, 8/1/15)