Setor de papel e celulose aplicam até 60% dos investimentos em logística

O setor de papel e celulose possui ao menos sete projetos para os próximos anos. No entanto, o transporte de cargas é essencial para viabilizar as novas unidades fabris

Os gargalos de infraestrutura e logística continuam sendo um custo significativo para a indústria brasileira, principalmente a de base. Empresas de segmentos diversos gastam até 60% dos investimentos de um único projeto para garantir a logística integrada e viabilizar a produção.

"Nos próximos dez anos, o forte dos investimentos da indústria brasileira será em logística. Porém, quero crer que o planejamento atual é adequado às necessidades da produção", diz o chefe do escritório local da Associação Latino-Americana de Ferrovias (Alaf) e sócio da JCP Consultores, Jean Pejo.

Para se ter uma ideia do volume de aportes destinado à logística por parte da indústria, o maior projeto da mineradora Vale, o S11D (que irá escoar minério de ferro em Carajás) tem investimento estimado de cerca de US$ 19 bilhões. Aproximadamente US$ 11,5 bilhões devem financiar a ampliação da capacidade logística.

O projeto contempla construção de um ramal ferroviário, duplicação de seções da ferrovia, terminal ferroviário e instalações portuárias. E este é apenas um dos aportes da Vale nesta seara, uma vez que a companhia aporta em diversos empreendimentos do gênero, como na expansão do Terminal Marítimo Ponta da Madeira (MA).

Para o sócio da Pezco Microanalysis e professor da ESPM, Frederico Turolla, de 2002 a 2014, a média anual de aportes em infraestrutura foi de apenas 2,1% do Produto Interno Bruto (PIB), no País. "Esta demanda cresceu brutalmente nos últimos anos principalmente por conta da expansão da China, no entanto, o Brasil não acompanhou", destaca.

Dependência

O setor de papel e celulose possui ao menos sete projetos para sair do papel nos próximos anos, no Brasil, e que dependem amplamente da logística para se concretizarem. Isso porque as plantas industriais estão cada vez mais longe da costa, fenômeno chamado de interiorização.

"A infraestrutura e a logística são os pulmões do País, uma vez que todas as outras atividades dependem delas e, hoje, este é o principal gargalo para o desenvolvimento mais acentuado da indústria", afirma o advogado do Firmo, Sabino e Lessa, Leonardo Coelho, especializado na área de infraestrutura.

Segundo o advogado, o modal rodoviário já não sustenta mais o crescimento do País, pois é caro e está estrangulado. "A vontade para depender menos de rodovias vem sendo dita como existente, mas ainda não se concretizou", destaca.

De acordo com Pejo, os projetos de infraestrutura não são bons no Brasil. Ele cita como exemplo o sistema ferroviário. "Muitos acidentes neste segmento se devem à falta de infraestrutura", diz. Ele diz ainda que as agências reguladoras precisam atuar de maneira muito mais firme na fiscalização das concessões.

"O programa de expansão das ferrovias exigirá muito mais das agências", ressalta Pejo. Para o advogado do Lessa, há problemas no marco das ferrovias. "O governo quer atrair investimentos, mas limita a liberdade da iniciativa privada. As regras não são claras", pondera.

Pejo afirma que os custos com logística nos Estados Unidos são três vezes menores do que no Brasil. "Lá, tanto o poder público quanto as empresas desembolsam altas cifras", explica. "A regulamentação é muito bem definida, diferentemente daqui. Estamos muito atrás do sistema deles", destaca.

Ele diz ainda que, uma vez no sistema de concessões, a atividade necessita de fiscalização. "Quando a atividade é privatizada, a regulamentação é essencial", reforça Pejo.

Em projetos de mineração, a logística representa até 60% dos investimentos. E se o planejamento sair do controle, o preço a se pagar é alto. É o caso da Anglo American, cujo maior projeto de transporte de minério de ferro, o Minas-Rio, precisou ter o orçamento ampliado de US$ 5,5 bilhões para US$ 8,8 bilhões, pois diversos itens não foram contemplados anteriormente.

"O gerenciamento de projetos precisa ser muito bem feito e, em minha avaliação, a fase de execução é a pior no País", destaca Pejo.

Para o advogado especializado em mineração do escritório Ribeiro Lima, Bruno Feigelson, a falta de investimentos por parte do governo é um sério problema. "Se a infraestrutura fosse adequada, os custos das empresas seriam reduzidos drasticamente", pondera.

O advogado destaca ainda a deficiência em portos como um dos principais gargalos da logística. "Existem enormes dificuldades tanto para as exportações da indústria brasileira quanto para as operações domésticas", acrescenta Feigelson.

Ele ressalta que, hoje, as mineradoras são empresas de minério e logística. "Antes, a extração era feita mais perto da costa justamente pela questão de escoamento. No entanto, a tendência atual é de interiorização e todos os projetos estão condicionados à infraestrutura", pontua.

"Se não houver logística integrada, as companhias não conseguem escoar", complementa.

Perspectivas

Para o sócio da Pezco, a expectativa para médio e longo prazo na área de infraestrutura e logística é razoável. "Independentemente do governo que entrar, deve haver manutenção dos investimentos. Os recursos de concessões serão importantes para a questão fiscal", diz Turolla.

Para o representante da Alaf, os projetos que englobam transporte de cargas, no Brasil, têm que ser uma questão de Estado e não apenas um tema para quatro anos de governo.

"A indústria já entendeu que, por mais que desenvolva programas de produtividade, se a logística emperrar, todo o ganho se perde do portão para fora da fábrica", destaca. "Um gargalo como esse pode gerar um apagão da produção", avalia (DCI, 10/9/14)