Indústria de frango dos EUA usa antibióticos rotineiramente nas criações

Grandes indústrias de aves dos Estados Unidos estão administrando antibióticos a suas criações com frequência muito maior do que as agências reguladoras podem perceber, o que representa um risco em potencial à saúde humana.

Registros internos examinados pela Reuters revelam que alguns dos maiores produtores de aves norte-americanos dão uma variedade de antibióticos a suas criações rotineiramente --e não somente quando adoecem, mas como prática comum durante a maior parte da vida das aves.

Em cada caso de uso de antibiótico identificado pela Reuters, as doses foram administradas nos níveis baixos que os cientistas dizem contribuir em especial para o crescimento das chamadas superbactérias, que adquirem resistência a medicamentos convencionais usados para tratar pessoas. Alguns dos antibióticos pertencem a categorias consideradas relevantes para humanos.

Os documentos internos contêm detalhes de como cinco grandes empresas --Tyson Foods, Pilgrim’s Pride, Perdue Farms, George’s e Koch Foods-- medicam parte de suas criações.

As provas documentais do uso rotineiro de antibióticos durante longos períodos são "assombrosas", disse Donald Kennedy, ex-comissário da Administração de Alimentos e Drogas dos EUA (FDA, na sigla em inglês).

Kennedy, presidente emérito da Universidade Stanford, afirmou que a aplicação tão disseminada das drogas por muito tempo pode criar “uma fonte sistemática de resistência a antibióticos” nas bactérias, cujos riscos não são totalmente conhecidos.

“Isto pode ser uma parcela ainda maior do problema de resistência a antibióticos do que eu tinha pensado”, declarou Kennedy.


“BILHETES DE REFEIÇÃO”

A Reuters analisou mais de 320 documentos gerados por seis grandes criadores de aves durante os últimos dois anos. Chamados de “bilhetes de refeição”, os documentos são emitidos aos criadores pelas empresas que fabricam rações de acordo com as especificações dos criadores.

Eles listam os nomes e gramas por tonelada de cada “ingrediente com droga ativa” nos lotes de ração, revelam o propósito de cada medicamento aprovado pela FDA e especificam para que estágio da vida aproximada de seis semanas de uma galinha a ração é destinada.

Os bilhetes de refeição examinados representam uma fração das dezenas de milhares emitidos anualmente para os criadores de aves administrados por ou para grandes produtores.

A informação confidencial que eles contêm, entretanto, vai muito além do que o governo dos EUA sabe. O uso veterinário de antibióticos é legal e vem aumentando há décadas, mas as agências reguladoras norte-americanas não monitoram como as drogas são administradas nas fazendas --em que doses, para qual fim ou por quanto tempo.

Tornados públicos aqui pela primeira vez, os documentos sobre os bilhetes de refeição oferecem uma visão única da maneira como algumas das maiores empresas do setor empregam antibióticos.

Os bilhetes indicam que duas delas --George’s e Koch Foods-- administraram drogas pertencentes à mesma classe de antibióticos usados para tratar infecções em humanos. A prática é legal, mas muitos cientistas médicos a consideram particularmente perigosa, porque implica o risco de desenvolvimento de super-bactérias capazes de derrotar os antibióticos humanos que protegem a vida.

Nas entrevistas, outra grande produtora, a Foster Poultry Farms, admitiu que também utilizou drogas das mesmas categorias que os antibióticos considerados medicamente relevantes para humanos pela FDA.

Cerca de 10 por cento dos bilhetes de refeição analisados pela Reuters listam antibióticos que pertencem a classes de drogas relevantes, mas, em apresentações recentes, cientistas do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC, na sigla em inglês) disseram que o uso de qualquer tipo de antibiótico, não só os medicamente relevantes, contribui para sua resistência. Segundo eles, sempre que um antibiótico é ministrado ele mata bactérias mais fracas e permite que as mais fortes sobrevivam e se multipliquem.

De acordo com os bilhetes de refeição analisados, doses baixas de antibióticos foram parte da dieta padrão de alguns criações de cinco empresas: Tyson, Pilgrim’s, Perdue, George’s e Koch.

"Estes não são usos destinados a bactérias específicas durante um determinado período. São doses cavalares, múltiplas, repetidas, que com certeza irão matar as bactérias mais fracas e incentivar as mais fortes e resistentes”, afirmou Keeve Nachman, diretor do programa de produção alimentar e saúde pública da Escolha de Saúde Pública Bloomberg da Universidade Johns Hopkins.


DROGAS “EXTREMAMENTE IMPORTANTES”

Neste mês, a Perdue Farms anunciou ter parado de aplicar o antibiótico gentamicina aos ovos em incubadoras de galinhas. A gentamicina é parte da classe de antibióticos considerada “extremamente importante” na medicina humana pela FDA.

A empresa afirmou querer “se distanciar do uso de antibióticos convencionais” por causa da “preocupação crescente dos consumidores e de nossas próprias dúvidas sobre a prática”.

A mudança, entretanto, não irá alterar a ração das galinhas. Parte desta tem empregado níveis baixos de um antibiótico, como revelam os bilhetes de refeição. A Perdue informou que só usa antibióticos que não são considerados medicamente relevantes pela FDA, e que em algumas fazendas não os utiliza em absoluto.

"Reconhecemos que o público estava preocupado com o impacto em potencial do uso destas drogas no tocante à sua capacidade de tratar humanos eficazmente”, disse Bruce Stewart-Brown, vice-presidente sênior de segurança e qualidade alimentar da Perdue, quando a nova política para as incubadoras foi anunciada.

O lobby da indústria avícola se opõe aos temores do governo e dos acadêmicos, dizendo haver poucas provas de que aquelas bactérias que se tornam resistentes também infectam pessoas.

"Várias análises de risco de cientistas, estudadas por seus próprios pares, demonstram que a resistência emergente em animais que se transfere a humanos não ocorre em quantidades mensuráveis, quando ocorre”, afirmou Tom Super, porta-voz do conselho nacional do setor.

Os criadores de aves começaram a utilizar antibióticos nos anos 1940, pouco depois da descoberta da penicilina, da estreptomicina e da clorotetraciclina, que ajudaram a controlar surtos de doenças nas galinhas. As drogas ofereciam ainda o benefício adicional de manter o trato digestivo das aves saudável, e as galinhas conseguiam ganhar mais peso sem comer mais.

Hoje, 80 por cento de todos os antibióticos usados nos EUA não são dados a pessoas, mas a animais de criações.

(Reuters, 15/9/14)