Produção de leite deve crescer 5%, mas setor tem desafios pela frente

Estimativa de crescimento anual foi feita por analista. Consumo estável deve impulsionar exportação de leite no país.

Com o período de seca chegando ao final, o preço do leite pago ao produtor deve começar a cair. A produção nacional, que cresceu 8,6% no primeiro semestre de janeiro a junho no país, deve apresentar desaceleração e crescer menos no segundo semestre. “Mas na média do ano, deve crescer de 5% a 6% em relação ao ano passado, ou seja, vem um volume grande de leite este ano”, afirma Valter Bertini Galan, da Milkpoint, que esteve em Cuiabá (MT) na semana passada participando de um evento do setor leiteiro.

Em sua palestra, ele tratou sobre cenários e tendências do mercado de leite para o futuro. Segundo ele, a produção do país cresceu cerca de 40% nos últimos dez anos suportada pelo crescimento de renda e, consequentemente do consumo, que passou de 120 litros por pessoa ao ano para 170 litros. Mas o consumo está estacionado há três anos, o que leva o setor a enfrentar quatro desafios para continuar sua expansão.
Um dos grandes desafios é como fazer para que o consumo continue crescendo. “Agora enxergamos que essa também pode ser uma tendência, mas que temos que inovar na produção de derivados de leite, outros produtos para que as pessoas continuem consumindo e aumentem seu consumo de leite”, analisa.
Com a produção aumentando e o consumo se mantendo estável, Galan acredita que o segundo desafio seria o acesso a mercados internacionais, que podem ter uma exigência de qualidade que o setor ainda não conhece. “Ao ter que exportar, vamos encontrar um ambiente de mercado totalmente diferente com exigências de qualidade diferentes, necessidade de novos acordos comerciais, aprovação de plantas e toda questão sanitária. Vamos ter que aprender como acessar novos mercados. Essa tratativa é um mundo que o Brasil não conhece ainda”, afirma.
O terceiro desafio ao setor leiteiro, de acordo com Galan, é a competitividade que a atividade precisa ter no campo, pois ela precisa ser mais rentável que outras culturas como soja, milho, cana, eucalipto, pecuária de corte intensificada, para citar alguns exemplos. Isso leva o produtor a pensar em formas de tornar sua propriedade mais produtiva.
“Em São Paulo e outros estados, paga-se R$ 1,5 mil a R$ 1,8 mil livre por hectare arrendado para o plantio de cana-de-açúcar. Então para o produtor deixar de arrendar para cana para fazer leite, o leite tem que dar mais do que isso”, diz.
Já o quarto desafio a ser enfrentado no futuro é na relação entre a indústria e o varejo e a coordenação da cadeia. Galan ressalta que está havendo uma desconcentração das indústrias de leite, pois enquanto 47% da produção ia para as duas maiores indústrias de leite há dez anos, hoje apenas 34% tem as duas como destino. “Isso devido ao surgimento de novas empresas, mais locais, empresas familiares que estão crescendo.”
Ao mesmo tempo, as indústrias encontram um varejo cada vez mais concentrado, o que acaba pressionando suas margens na hora de comercializar seus produtos. “É o elo hoje que vemos com mais desafios dentro da indústria de leite, que tem que achar sua função, uma forma de se consolidar para inclusive enfrentar um varejo cada vez mais consolidado”, afirma.
Essa restrição na comercialização dificulta a negociação, mas, de acordo com ele, algumas indústrias têm procurado alternativas, como a venda para varejos de menor porte, pois mesmo o gasto maior com logística compensa, já que o grande varejo baixa a margem de lucro.
Para o próximo ano, ele acredita que o cenário deve ser tão favorável aos pecuaristas de leite quanto foi neste ano já que os preços dos grãos estavam baixos. “Isso já está ajudando este ano e pelo menos o cenário para soja e para o milho do próximo ano é um cenário de preços mais baixos até do que o produtor de leite teve até agora”, conclui (G1, 30/9/14)