Safra com períodos irregulares antecipa dificuldades para setor em 2015

Falta de investimento em canaviais resultará em safra deficiente em momento crítico
De acordo com a Unica (União da Indústria da Cana-de-Açúcar), as usinas de açúcar e etanol do país devem encerrar a safra 2014/2015 devendo 110% de seu faturamento, com receita estimada em cerca de 70 bilhões de reais.
“O término da safra está cerca de trinta dias adiantado. A finalização da safra, que ano passado ocorreu no fim de novembro e início de dezembro, este ano ocorrerá no fim de outubro e início de novembro. Com algumas unidades tendo finalizado um pouco antes” explicou Marcos Mine, gestor de risco da Usina Alta Mogiana.
Um levantamento da Unica mostra que a colheita no Centro-Sul deve ficar entre 545 milhões e 550 milhões de toneladas, o que significa uma colheita com 40 milhões de toneladas a menos que o previsto inicialmente, parte por causa da seca, sobretudo em São Paulo e Minas Gerais, e também por otimismo nas projeções. O Nordeste deve colher entre 55 milhões e 60 milhões de toneladas.
“Esse problema de falta de cana já está acontecendo há bastante tempo. Não tem havido manutenção de canaviais por falta de investimento, ou seja, o canavial está velho e fraco. A tendência é que a próxima safra seja ainda pior e tenha ainda menos cana-de-açúcar, com a safra começando mais cedo e terminando mais cedo”, explicou, Pires, da MBF.
Para Marcos A. Françóia, também diretor da MBF Agribusiness, o otimismo das previsões advém dos anúncios de linhas de crédito subsidiadas para a lavoura canavieira. Para Françóia “há uma diferença enorme entre o valor disponibilizado e o valor de fato utilizado, pois a burocracia e exigências cadastrais para se ter acesso ao recurso tem filtrado e diminuído o número de tomadores. Quem frequenta o campo e convive com a gestão do setor sabe que as previsões precisam de cautela.”
Sabe-se que no Centro-Sul, a seca deste ano deve reduzir em 9% o volume de cana processada, de 597 milhões de toneladas em 2013/14 para 546 milhões de toneladas, com uma perspectiva ainda menos positiva para o ano que vem.
“No momento, o canavial está numa situação tão ruim que a maior parte da cana produzida no centro-sul rende apenas 70/75 toneladas por hectare, o que é muito abaixo do esperado, sendo que deveria produzir 130/140 toneladas, no primeiro corte de uma cana de dezoito meses e 100 toneladas por hectare para a de doze meses”, explicou Jair Pires.
“Na safra passada tivemos períodos de chuva em maio e em junho, que acabou retardando o término da safra e tivemos mais cana para moer no fim. Este ano, com um clima totalmente atípico, as usinas estão moendo a todo vapor desde o início da safra. Estamos num ritmo de safra maior com menos cana”, acrescentou Mine da Alta Mogiana.
Entressafra estendida
Para Jair Pires, a consequente entressafra que se estenderá por um período mais longo (até abril de 2015), agravada pela baixa produção deste ano, pelos preços baixos, ainda associada ao custo de manutenção da indústria, da frota e dos canaviais, a mercê de possíveis créditos entre fornecedores e usinas, faz com que o período de entressafra para o setor sucroenergético seja especialmente traumático.
O ideal é que no final da safra já aconteça a reforma da usina, reforma das máquinas e equipamentos agrícolas, com boa parte da manutenção sendo feita internamente, enquanto o período ideal para o plantio de cana vai de fevereiro a abril, exigindo alto volume de capital.
“O momento atual vai exigir uma união entre Usinas, fornecedores e prestadores de serviço de manutenção, juntando seus limites de crédito para financiar a entressafra”, comenta Jair Pires.
Dados da Fequimfar (Federação dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas e Farmacêuticas) paulista apontam que o encerramento precoce da safra de cana-de-açúcar 2014/15 afetará 35 mil trabalhadores só em São Paulo.
A crise
O setor sucroalcooleiro tem enfrentado desde 2008 uma das maiores crises da história. Endividamento, perda da competitividade diante da gasolina associado a problemas climáticos mostram que esta situação pode estar longe do fim. “Como disse não podemos culpar somente o governo. Só que por não termos controle sobre o clima, a legislação deveria nos favorecer. Ao invés disso, para segurar a inflação o governo controla o preço da gasolina, consequentemente prejudica o etanol. No final, o cidadão não está preocupado com a questão ambiental e não vai usar o etanol que é mais caro. Então ele compra a gasolina que é economicamente mais interessante, consequentemente ele acaba com o setor”, explica Jair Pires da MBF Agribusiness.
Marcos Françóia, da MBF, acredita que apesar das dificuldades estarem longe do fim, com os ativos depreciados e o endividamento alto, o setor já está atraindo para si, os olhares dos investidores.
“Novas caras no setor poderão trazer mais credibilidade aos credores, dando fôlego para pagamento das dívidas e colocando capital para melhorar a lavoura”, afirma (Atualize MBF, 14/11/14)